Caso Renato Nery: MP pede que quatro policiais da Rotam sejam levados a júri e aponta confronto forjado
O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) voltou a defender que quatro policiais militares da Rotam sejam submetidos ao Tribunal do Júri pela morte de Walteir Lima Cabral e pelas tentativas de homicídio contra Pedro Elias Santos Silva e Jhuan Maxmiliano de Oliveira Matsuo Soma. O caso está relacionado às investigações sobre o assassinato do advogado Renato Gomes Nery, ocorrido em Cuiabá.
Nos memoriais finais apresentados à Justiça, o promotor Rinaldo Ribeiro de Almeida Segundo sustenta que Jorge Rodrigo Martins, Wailson Alessandro Medeiros Ramos, Wekcerlley Benevides de Oliveira e Leandro Cardoso teriam atuado de forma coordenada na execução de Walteir, nos ataques contra Pedro e Jhuan e na posterior montagem de uma falsa situação de confronto.
De acordo com a acusação, a ação teria servido para inserir em um novo cenário criminal a pistola Glock utilizada no assassinato de Renato Nery, criando uma justificativa para a localização da arma e dificultando a apuração do homicídio do advogado.
O Ministério Público aponta ainda que os militares fariam parte de um grupo denominado “Gol Branco” e teriam participado de ações destinadas a alinhar versões e interferir nas investigações.
MP quer julgamento pelo Tribunal do Júri
Na manifestação final, o promotor argumenta que existem elementos suficientes de materialidade e indícios de autoria para que os quatro réus sejam pronunciados — etapa processual que, caso seja acolhida pelo juiz, determina que os crimes dolosos contra a vida sejam julgados pelo Tribunal do Júri.
Segundo o MPMT, Walteir teria sido morto e Pedro e Jhuan atacados sem possibilidade efetiva de defesa. A acusação também sustenta a existência de qualificadoras, como motivo torpe, recurso que dificultou a defesa das vítimas e a prática dos crimes com a finalidade de ocultar ou assegurar a impunidade de outra infração.
Para o Ministério Público, os quatro policiais agiram com divisão de tarefas e objetivo comum na ocorrência registrada no Contorno Leste, em Cuiabá.
A defesa dos acusados poderá contestar as acusações e os elementos apresentados pelo Ministério Público. Caberá à Justiça decidir se existem requisitos para pronunciá-los e encaminhar os homicídios e tentativas de homicídio para julgamento pelos jurados.
Policiais permanecem presos após decisão do STJ
Os quatro militares chegaram a obter liberdade provisória em 2025, submetidos a medidas cautelares. A decisão foi mantida no âmbito estadual, mas o Ministério Público recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Em decisão monocrática proferida em 11 de fevereiro de 2026 e publicada no dia 18, a ministra Maria Marluce Caldas determinou o restabelecimento da prisão preventiva dos quatro acusados. A decisão atendeu recurso apresentado pelo MPMT.
Desde então, eles permanecem presos. Durante audiência realizada nesta semana, as defesas voltaram a solicitar a revogação das prisões preventivas. O juiz João Bosco Soares da Silva abriu prazo para manifestação do Ministério Público sobre os pedidos de liberdade.
Enquanto analisa essas solicitações, o promotor Rinaldo Segundo apresentou as alegações finais da acusação e reiterou a tese de que o caso deve seguir para o Tribunal do Júri.
Confronto teria sido montado para inserir arma no caso
O episódio envolvendo os quatro policiais ocorreu em 12 de julho de 2024, no Contorno Leste, em Cuiabá, dias depois do atentado contra Renato Nery.
Na ocasião, Walteir Lima Cabral morreu e Pedro Elias e Jhuan de Oliveira foram baleados. Inicialmente, a ocorrência foi apresentada como resultado de um confronto com os policiais.
A investigação, porém, passou a questionar essa versão. Segundo a denúncia do Ministério Público, a cena teria sido manipulada para simular uma troca de tiros. Uma das principais suspeitas surgiu após a perícia relacionar a arma encontrada naquela ocorrência ao assassinato de Renato Nery.
A pistola Glock calibre 9 milímetros, de número de série VPL521, teria sido a mesma utilizada para disparar contra o advogado. Conforme elementos apresentados pela acusação, estojos e projéteis recolhidos na cena do atentado contra Nery foram associados à arma que posteriormente apareceu no suposto confronto.
O Ministério Público também apontou que munições relacionadas ao caso pertenciam à Polícia Militar de Mato Grosso, com vinculação à Rotam.
Conversas em grupo de WhatsApp entraram na investigação
A análise de aparelhos celulares dos investigados revelou a existência de um grupo de WhatsApp chamado “Gol Branco”, composto pelos quatro militares.
Para o Ministério Público, as conversas indicariam uma tentativa de alinhar os depoimentos sobre a ocorrência e evitar divergências entre as versões apresentadas pelos policiais. Há registros, segundo a investigação, de preocupação dos integrantes com o conteúdo dos depoimentos e com a gravação das declarações.
O material foi incorporado pela acusação como um dos elementos utilizados para sustentar a tese de obstrução da Justiça.
Além dos crimes contra a vida, os policiais respondem a acusações relacionadas a organização criminosa, fraude ou alteração de elementos da ocorrência, porte ilegal de arma de fogo e outros delitos apontados ao longo da investigação.
Morte de Renato Nery teria relação com disputa milionária de terras
Renato Gomes Nery foi baleado em frente ao escritório onde trabalhava, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, em Cuiabá, em julho de 2024. A investigação relaciona a motivação do crime a uma disputa judicial envolvendo propriedades rurais e interesses avaliados em milhões de reais.
Segundo o Ministério Público, Cesar Sechi e Julinere Goulart Bentos são apontados como integrantes do chamado núcleo de comando e acusados de encomendar o assassinato após um conflito judicial envolvendo terras.
O policial militar Heron Teixeira Pena Vieira, por sua vez, é apontado pela acusação como integrante do núcleo de intermediação e responsável por fazer a ligação entre os supostos mandantes e a parte operacional do crime.
Alex Roberto de Queiroz Silva, que trabalhava como caseiro de Heron, confessou a execução de Renato Nery e foi responsabilizado pelo ataque.
Na estrutura descrita pelo Ministério Público, os quatro integrantes da Rotam aparecem em um núcleo voltado à obstrução, sob a acusação de terem criado posteriormente um contexto artificial para inserir a arma utilizada contra o advogado em uma ocorrência policial.
Com o encerramento das alegações finais, caberá agora à Justiça analisar as provas e os argumentos das partes para decidir se Jorge Rodrigo, Wailson Alessandro, Wekcerlley Benevides e Leandro Cardoso serão pronunciados e levados ao Tribunal do Júri pelos crimes contra a vida atribuídos a eles.






