Mensagens apontam contrato de R$ 500 mil por mês entre Vorcaro e ex-cunhado de Gilmar Mendes
Conversas encontradas no celular do empresário e ex-banqueiro Daniel Vorcaro indicam que Francisco Feitosa, conhecido como Chiquinho, foi contratado em 2024 para prestar serviços ligados aos interesses do então dono do Banco Master. Feitosa é ex-cunhado do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e já exerceu mandatos de deputado federal e senador pelo Ceará.
As mensagens atribuídas aos dois foram trocadas, pelo menos, entre abril de 2024 e junho de 2025 e fazem referências a universidades privadas, ao Ministério da Educação (MEC) e a cursos de Medicina. No mesmo período, Gilmar Mendes era relator no STF de processos relacionados às regras para abertura de novos cursos médicos no país.
Segundo os diálogos revelados pela imprensa, em setembro de 2024 Vorcaro negociou uma contratação que previa pagamento de R$ 500 mil mensais pelos serviços de Chiquinho, além de R$ 800 mil adicionais no primeiro pagamento. Francisco Feitosa confirmou ter firmado contrato com a Super Empreendimentos, mas não detalhou os valores nem especificou quais atividades foram efetivamente realizadas. Ele afirmou que a consultoria ocorreu por um período curto e que a empresa atuava em diferentes setores.
A Super Empreendimentos aparece em investigação da Polícia Federal sob suspeita de ter sido utilizada para movimentar pagamentos relacionados a Vorcaro. As suspeitas envolvendo a empresa fazem parte das apurações e não representam, por si só, comprovação de irregularidade de todos os contratos firmados por ela.
Mensagens mencionam aproximação com Gilmar
Parte dos diálogos também trata da relação de Vorcaro com Gilmar Mendes.
Em abril de 2024, o interlocutor identificado como Chiquinho recomendou que Vorcaro estabelecesse contato diretamente com o ministro, afirmando que essa aproximação seria importante no futuro.
Francisco Feitosa, entretanto, nega ter sido contratado para promover ou intermediar encontros entre Vorcaro e Gilmar. Ele também afirmou que chegou a marcar, a pedido do empresário, uma conversa com sua irmã Guiomar, então esposa do ministro, para que Vorcaro apresentasse números de processos. Segundo Chiquinho, essa apresentação não chegou a acontecer.
Gilmar e Guiomar anunciaram o divórcio em novembro de 2025.
Outro diálogo atribuído ao telefone de Chiquinho, no mês seguinte, fazia referência a um jantar com Gilmar Mendes e o ministro Cristiano Zanin, além de uma suposta conversa sobre temas de interesse do grupo. Francisco Feitosa contestou essa interpretação e afirmou que nunca esteve com Zanin, acrescentando que essa informação não teria partido de seu aparelho.
Vorcaro teve encontro com ministro do STF
Há registro de que Daniel Vorcaro se reuniu com Gilmar Mendes no dia 11 de abril de 2024. Segundo reportagem da coluna de Mônica Bergamo, o empresário buscou o ministro para tratar de uma disputa judicial bilionária envolvendo indenizações de usinas do setor sucroalcooleiro, tema no qual o Banco Master possuía interesses financeiros. Gilmar, porém, posteriormente votou em sentido contrário à posição defendida por Vorcaro em julgamentos relacionados ao caso.
O gabinete do ministro também declarou que Gilmar não tinha conhecimento de eventuais tratativas privadas relacionadas à questão.
Conversas fazem referências ao MEC
Chiquinho afirma que os serviços prestados não envolviam interesses de Vorcaro no Ministério da Educação nem atuação junto a Camilo Santana, que ocupava o cargo de ministro da Educação naquele período e atualmente é senador pelo Ceará.
As mensagens, entretanto, contêm referências ao MEC.
No período em que a contratação estava sendo negociada, uma das conversas atribuídas ao telefone de Chiquinho informava a Vorcaro que determinada questão no Ministério da Educação estaria avançando dentro do ritmo esperado. O diálogo também fazia referência ao envio de contrato para assinatura e emissão de nota fiscal.
Outras mensagens mencionam tentativas de reuniões e compromissos que Francisco Feitosa teria mantido com Camilo Santana, embora o conteúdo divulgado não esclareça quais assuntos teriam sido tratados.
Em abril de 2024, uma reunião com o então ministro teria sido cancelada. Já em junho daquele ano, uma mensagem atribuída a Chiquinho dizia que ele estava em Fortaleza durante o aniversário de Camilo, na companhia de Gilmar Mendes, e sugeria que Vorcaro telefonasse para conversar com ambos.
O empresário respondeu que estava em um voo e não poderia realizar a ligação naquele momento, enviando apenas uma saudação ao então ministro da Educação.
Procurado pela reportagem, Camilo Santana afirmou que nunca recebeu de Chiquinho solicitações feitas em nome de Vorcaro e declarou que não atuaria de maneira contrária aos princípios da administração pública.
Documento sobre cursos de Medicina também aparece nos diálogos
Em agosto de 2024, o interlocutor atribuído a Francisco Feitosa encaminhou a Vorcaro um documento identificado como sendo do MEC relacionado ao padrão decisório para cursos de Medicina.
O Ministério da Educação havia estabelecido procedimentos para analisar processos de novos cursos e ampliação de vagas que chegaram à administração federal por determinação judicial. Entre os critérios estavam necessidade social e disponibilidade de estrutura pública de saúde adequada nos municípios interessados.
Chiquinho afirmou que o documento encaminhado a Vorcaro era público e estava disponível na internet.
Antes disso, o ex-banqueiro também havia enviado ao interlocutor um contato relacionado à Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Feitosa confirmou ter se reunido com uma pessoa indicada por Vorcaro ligada à instituição, mas disse que o objetivo do encontro foi apenas ouvi-la.
Gilmar nega ter tratado de interesses no MEC
Por meio de sua assessoria, Gilmar Mendes afirmou que nunca discutiu com Daniel Vorcaro ou Francisco Feitosa qualquer assunto relacionado ao Ministério da Educação.
O ministro também destacou sua atuação no julgamento que discutiu a criação de novos cursos de Medicina. Em junho de 2024, o STF decidiu que novas graduações e ampliação de vagas devem respeitar o sistema de chamamento público previsto na Lei do Programa Mais Médicos. Gilmar era relator da ADC 81 e da ADI 7187.
As mensagens divulgadas mostram contatos, referências a autoridades e a existência de uma relação contratual entre Vorcaro e Francisco Feitosa. Os envolvidos, contudo, negam que o contrato tenha sido destinado a obter interferência de Gilmar Mendes ou de Camilo Santana em favor dos interesses do empresário.







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