Grafite feminino transforma marcas de violência contra mulheres em resistência nos muros de Cuiabá
Muros de Cuiabá que durante anos carregaram mensagens ofensivas contra uma mulher estão ganhando um novo significado pelas mãos de artistas do coletivo feminino Manas do Mato. As grafiteiras iniciaram um trabalho independente para cobrir pichações misóginas e substituir as inscrições por pinturas que remetem à resistência, ao acolhimento e ao fortalecimento das mulheres.
As mensagens estavam espalhadas por diferentes regiões da Capital, entre elas os bairros Boa Esperança e Duque de Caxias e a Estrada do Moinho. As pichações expunham uma mulher identificada apenas como Judite, que já havia sido vítima de violência doméstica.
Segundo integrantes do coletivo, a situação teve consequências profundas para a vítima, que enfrentou processos relacionados às inscrições e chegou a deixar Cuiabá. Por esse motivo, as artistas decidiram não reproduzir o teor das mensagens e preservar qualquer informação que pudesse provocar uma nova exposição.
Uma das intervenções foi realizada no bairro Duque de Caxias, no muro do Edifício Ceará, próximo à Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel). No lugar da inscrição ofensiva, surgiram flores produzidas em grafite.
A artista Isabelly França, de 24 anos, explica que a proposta é retirar dos espaços públicos uma marca associada à violência e transformá-la em uma manifestação de resistência e empoderamento feminino.
Como o projeto é realizado de maneira independente, o grupo ainda não conseguiu alcançar todos os pontos onde existem inscrições relacionadas ao caso. A intenção, porém, é dar continuidade às intervenções e gradualmente transformar outros muros.
Mural relembra jovem assassinada em Cuiabá em 1992
O combate à violência contra a mulher também aparece em outro trabalho desenvolvido pelas Manas do Mato. Na lateral da Secel, as artistas produziram um mural que recupera a memória de Cristiane Augusta de Moraes Correa, jovem assassinada em Cuiabá há mais de três décadas.
Cristiane tinha 21 anos quando desapareceu em dezembro de 1992. Seu corpo foi localizado no dia seguinte em um terreno baldio da Capital, apresentando sinais de violência sexual e estrangulamento. O caso ganhou grande repercussão na imprensa mato-grossense na época.
As investigações se estenderam durante anos e passaram por diferentes fases, mas não resultaram na responsabilização definitiva pelo crime.
Em 2007, o Ministério Público Estadual pediu o arquivamento do inquérito. Na ocasião, além da ausência de elementos considerados suficientes para sustentar uma acusação contra o suspeito então investigado, também foi apontada a prescrição do crime.
Mais de 30 anos depois, o caso permanece sem uma conclusão que tenha identificado e responsabilizado judicialmente o autor do assassinato.
Ao recuperar a história de Cristiane em um espaço público, o coletivo pretende preservar a memória da jovem e provocar reflexão sobre a violência praticada contra mulheres e sobre crimes que atravessam décadas sem uma resposta definitiva.
Coletivo nasceu da união de mulheres no grafite
O Manas do Mato foi criado em maio de 2024 e reúne atualmente cerca de 40 mulheres ligadas a diferentes segmentos artísticos, entre eles grafite, muralismo e design.
A aproximação que deu origem ao grupo ganhou força depois da participação de artistas de Mato Grosso no Cores Femininas, festival de grafite realizado em Recife e voltado à produção artística de mulheres.
Durante a experiência fora do Estado, as participantes tiveram contato com grafiteiras de várias regiões do país e perceberam que, em Mato Grosso, diversas mulheres já trabalhavam com arte urbana, mas muitas desenvolviam suas produções de maneira isolada e sequer conheciam o trabalho umas das outras.
Ao retornarem para Cuiabá, decidiram criar uma rede própria. O grupo começou com aproximadamente 12 integrantes e foi crescendo até reunir dezenas de mulheres.
Entre as participantes estão Isabelly França, Vanúbia Rangel, Tex Teixeira, Danieli Cidram, Hevilly Arruda, Ana Psendziuk, Paola Augusta e Kamila Ávila Bello, além de outras artistas de diferentes áreas.
A proposta do coletivo vai além da pintura dos muros. As integrantes buscam ampliar a visibilidade das mulheres na arte urbana, estimular a troca de experiências entre artistas e ocupar espaços públicos por meio de trabalhos que abordam questões sociais.
No projeto que substitui pichações ofensivas por grafites, essa proposta ganha outro significado: espaços antes utilizados para expor e violentar uma mulher passam a carregar imagens produzidas por outras mulheres, transformando marcas de agressão em manifestações de memória, resistência e ocupação artística.






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