Casarão centenário de Cuiabá que abrigou escola e família no porão será transformado em Museu de Arte
Um dos imóveis históricos mais conhecidos da região do Porto, em Cuiabá, está prestes a ganhar um novo capítulo. O casarão amarelo localizado entre as ruas 13 de Junho e Senador Metelo, que ao longo de mais de um século já funcionou como escola e sede da Casa do Artesão, está sendo restaurado para receber o Museu de Arte Mato-grossense (MAMT).
Construído e inaugurado em 1910 para sediar um grupo escolar, o prédio preserva elementos arquitetônicos barrocos e neoclássicos e carrega histórias que vão muito além das atividades institucionais desenvolvidas no local. Entre elas está a trajetória de Maria Adelina de Amorim, conhecida como Nina, que chegou ainda bebê a Cuiabá e passou parte da infância vivendo com a família no porão do imóvel.
Quando tinha apenas dois meses, Nina subiu o Rio Cuiabá de canoa acompanhada dos pais, que buscavam melhores oportunidades na capital. Sem residência própria, a família recebeu abrigo no casarão por intermédio de uma tia de Maria Adelina que trabalhava na então Escola Senador Azeredo.
O espaço destinado à família era restrito ao porão. Foi justamente ali que ocorreu um dos episódios mais dolorosos da infância de Nina: a morte de seu pai.
Trechos reunidos posteriormente no livro autobiográfico Relíquias de Família relatam que ele passou mal durante a manhã, reclamou de uma forte dor no peito e morreu antes que a esposa retornasse com um medicamento. O homem enfrentava problemas associados ao alcoolismo.
Lázaro da Cunha Amorim, um dos filhos de Maria Adelina, conta que a mãe não descrevia aquele período de maneira romantizada. Para ela, apesar de o casarão representar um teto, o porão estava longe de oferecer as condições de uma residência convencional.
Segundo as memórias transmitidas à família, havia poucos recursos, com cama e rede disponíveis, e Maria Adelina não tinha liberdade para circular pelo restante do prédio.
Mesmo diante das dificuldades enfrentadas durante a infância, Nina construiu uma trajetória marcada pela educação e pela assistência social. Tornou-se professora, escritora e assistente social, graduando-se pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em 1977. A turma da qual fazia parte chegou a homenageá-la utilizando seu nome.
Além da atuação profissional, Maria Adelina escreveu poesias, alfabetizou familiares e participou de iniciativas voltadas à educação e à assistência social.
Sua história foi organizada pelos familiares em uma publicação autobiográfica. Para Lázaro, preservar as lembranças da mãe também significa registrar parte das transformações vividas por Cuiabá ao longo das décadas.
Família precisou deixar o casarão
Em outra etapa da juventude de Nina, que ela própria descrevia como sua fase de “menina-moça”, a situação da família voltou a mudar.
Um batalhão do 18º Batalhão de Caçadores, vindo de Campo Grande, ocupou o porão do imóvel. Com isso, Maria Adelina, a mãe e os irmãos tiveram que deixar o espaço onde viviam.
Sem residência disponível, a família acabou sendo instalada em um galpão cedido por Firmo Pinto de Figueiredo.
A mudança também trouxe consequências financeiras. A mãe de Nina perdeu o trabalho que mantinha no Grupo Escolar Azeredo e precisou encontrar outra maneira de sustentar os filhos.
Foi então que passou a produzir doces. Maria Adelina e o irmão ajudavam nas vendas, oferecendo os produtos aos soldados próximos ao casarão onde anteriormente haviam morado.
A busca por uma residência própria começou pouco tempo depois. De acordo com as memórias deixadas por Nina, sua mãe procurou parentes e conhecidos em busca de materiais de construção, mão de obra e contribuições financeiras.
Firmo Pinto de Figueiredo, responsável por disponibilizar temporariamente o galpão à família, também negociou com ela um terreno de cinco metros de largura por 50 metros de comprimento na Rua 13 de Junho.
O imóvel ficava no endereço onde atualmente está localizada a casa de número 1238.
A compra foi paga aos poucos, em parcelas de CR$ 50. Quando restavam cerca de CR$ 300 para quitar o terreno, um parente chamado Simão ajudou a concluir o pagamento. No local foi construída uma residência simples, inicialmente composta por um quarto e uma cozinha.
Segundo os registros de Nina, a casa ficou pronta por volta de 1942, quando ela encerrava os estudos no Liceu Cuiabano.
A partir dali, o porão do casarão amarelo deixou definitivamente de ser a residência da família.
De menina pobre a professora e assistente social
A vida de Maria Adelina passou por grandes transformações nas décadas seguintes. Ela seguiu os estudos, tornou-se professora e mais tarde assistente social.
Também constituiu uma família numerosa. Segundo Lázaro, foram 12 filhos, incluindo uma menina adotada ainda durante a infância.
Mesmo com as responsabilidades familiares, Nina manteve a produção de poesias e continuou envolvida em atividades comunitárias e educacionais na capital mato-grossense.
Para o filho, a maior marca deixada pela mãe foi a importância atribuída à educação. Embora tenha começado a vida em condições extremamente simples, vivendo durante parte da infância em um porão, ela conseguiu criar os filhos e incentivá-los a estudar.
A maioria deles, segundo Lázaro, concluiu o ensino superior e seguiu diferentes carreiras profissionais.
Para ele, a trajetória pode ser resumida em uma frase: “Ela venceu”.
Prédio histórico ganha nova finalidade
Enquanto a história de Nina seguiu longe do antigo porão, o casarão também passou por diversas transformações.
Após funcionar como unidade escolar, o imóvel teve outros usos e posteriormente abrigou a Casa do Artesão. O espaço permaneceu fechado a partir de 2018 e acabou devolvido ao Estado.
Décadas depois, surgiu uma nova proposta para o edifício centenário.
Segundo Robinson de Carvalho Araújo, superintendente de Preservação do Patrimônio Histórico e Museológico da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), a ideia de transformar o casarão em sede do Museu de Arte Mato-grossense começou a ser estruturada em 2024.
A definição do novo uso ocorreu após articulação entre a Secel e a Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), que buscavam uma destinação permanente para o prédio.
O projeto prevê que a administração do futuro museu ocorra por meio de gestão compartilhada.
Em janeiro de 2025, a Secel lançou o Edital de Chamamento Público nº 005/2025 para selecionar uma Organização da Sociedade Civil (OSC) que ficará responsável pela operação do equipamento cultural.
O investimento previsto é de aproximadamente R$ 10,67 milhões, valor que contempla tanto a reforma e adaptação do imóvel quanto a manutenção da gestão do museu pelo período de cinco anos.
Desse montante, cerca de R$ 3 milhões têm origem na Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
A entidade selecionada deverá desenvolver atividades relacionadas à administração, preservação do acervo, pesquisa, formação cultural e divulgação das obras mantidas pelo museu.
Reforma precisa preservar arquitetura centenária
Por se tratar de um patrimônio tombado pelo Estado, qualquer alteração no casarão precisa obedecer a critérios específicos de conservação.
Robinson destaca que o imóvel preserva grande parte de suas características arquitetônicas originais e representa um período histórico em que técnicas e mão de obra europeias influenciavam construções realizadas em Mato Grosso.
Por isso, o objetivo da reforma não é modificar a identidade do edifício, mas adaptar o espaço às necessidades de um museu sem comprometer sua arquitetura.
Antes da implantação dos ambientes expositivos, foi necessário executar serviços de estabilização e manutenção.
Entre os trabalhos realizados ou em andamento estão revisões na cobertura e no assoalho, além da modernização das redes elétrica e hidráulica.
A antiga entrada de energia já não atendia às necessidades atuais e precisou ser substituída. Outras etapas dependem da análise e aprovação dos projetos de intervenção.
Para preservar as paredes originais, uma das soluções estudadas é utilizar painéis próprios para a exposição das obras, evitando que quadros e estruturas sejam fixados diretamente no prédio histórico.
Novos equipamentos e instalações também deverão permanecer aparentes em alguns pontos, justamente para reduzir alterações permanentes no edifício.
O projeto ainda prevê adaptações de acessibilidade.
Museu deve fortalecer região do Porto
A instalação do MAMT no casarão também é vista como uma estratégia para valorizar a região histórica do Porto.
A expectativa da Secel é de que o equipamento cultural atraia moradores e visitantes, estimule atividades no entorno e contribua para a preservação da memória arquitetônica local.
Além de conhecer exposições e participar de atividades culturais, o público poderá ter contato direto com um prédio construído há mais de um século.
A previsão inicial era de que o museu pudesse ser inaugurado ainda em 2026. Entretanto, segundo a Secel, questões relacionadas a uma ação judicial provocaram alterações no calendário.
Com a revisão do cronograma, a expectativa passou a ser de abertura no primeiro semestre de 2027.
Acervo terá Tarsila do Amaral, Rodin e grandes artistas de Mato Grosso
Quando estiver pronto, o novo Museu de Arte Mato-grossense deverá reunir uma coleção formada por artistas de relevância estadual, nacional e internacional.
Entre os nomes previstos no acervo aparecem Tarsila do Amaral, uma das principais representantes do modernismo brasileiro, e o escultor francês Auguste Rodin.
Também integram a coleção trabalhos de Aldemir Martins, Cícero Dias, Clóvis Graciano, Maciej Babinski, Marcello Grassmann e Tuneu, nome artístico de Antonio Carlos Rodrigues.
A produção mato-grossense terá papel de destaque.
O acervo reúne trabalhos de artistas como Humberto Espíndola, Adir Sodré, Clóvis Irigaray, Gervane de Paula, João Sebastião da Costa, Vitória Basaia, Dalva de Barros, Benedito Nunes, Nilson Pimenta e Alcides Pereira dos Santos, além de dezenas de outros nomes relacionados à história das artes visuais no estado.
Antes de chegar às áreas de exposição, cada peça passa por procedimentos técnicos de identificação, catalogação, inventário, conservação e estabilização.
O futuro museu também contará com uma reserva técnica destinada à guarda das obras que não estiverem em exibição.
Segundo Robinson, grande parte do trabalho de uma instituição museológica acontece justamente longe dos olhos do visitante. Manter temperatura, condições ambientais e armazenamento adequados é essencial para impedir a deterioração das peças ao longo dos anos.
Dessa forma, o casarão que há mais de um século serviu de cenário para a infância difícil de Maria Adelina e para a vida escolar de gerações de cuiabanos passará a cumprir uma nova função.
Ao mesmo tempo em que preservará as características de um edifício inaugurado em 1910, o imóvel deverá guardar obras de alguns dos principais artistas de Mato Grosso e de nomes consagrados da arte brasileira e internacional, conectando diferentes períodos da história de Cuiabá dentro de um mesmo endereço.






