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MP investiga críticas de prefeito de Cuiabá à merenda sem açúcar nas escolas

Declarações de Abilio Brunini sobre bolo servido a alunos geram reação de nutricionistas e acendem debate sobre alimentação infantil

O Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT) abriu procedimento para apurar declarações do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, sobre o cardápio da merenda escolar servido nas creches e escolas da rede municipal.

As falas ocorreram durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais, quando o prefeito visitava a cozinha de uma unidade escolar e criticou a ausência de açúcar em um bolo de cacau oferecido às crianças.

“Bolo de cacau, mas sem açúcar? Fica sem graça, pô! […] A criança não vai comer com muita alegria”, afirmou Brunini ao comentar a receita, que incluía cacau em pó, ovo, fubá, farinha de trigo, fermento, óleo, água e uva-passa.

Investigação do MP

No ofício nº 18/2026/PJEDCC, o promotor de Justiça Miguel Slhessarenko Junior apontou preocupação com o impacto das declarações no debate sobre alimentação infantil nas escolas.

Segundo ele, o ambiente escolar tem papel central na formação de hábitos alimentares saudáveis.

“O ambiente escolar constitui espaço privilegiado para a promoção de hábitos alimentares saudáveis e para a formação de padrões nutricionais que repercutem ao longo da vida”, destacou o promotor.

O representante do Ministério Público também alertou que estimular o consumo de alimentos inadequados dentro das escolas pode representar retrocesso nas políticas públicas de alimentação saudável.

Debate sobre açúcar nas escolas

A discussão ocorre em meio às diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que incentiva refeições com alimentos naturais e limita o uso de açúcar e ultraprocessados nas unidades de ensino público.

Especialistas apontam que o consumo excessivo de açúcar na infância pode aumentar os riscos de obesidade e doenças metabólicas ao longo da vida.

Obesidade infantil preocupa especialistas

Dados do Atlas Mundial da Obesidade 2026 indicam que cerca de 16,5 milhões de crianças e adolescentes brasileiros apresentam algum grau de excesso de peso.

Entre crianças de 5 a 9 anos, aproximadamente 6,6 milhões convivem com sobrepeso ou obesidade. Já entre jovens de 10 a 19 anos, o número chega a 9,9 milhões.

A nutricionista Mariana Whelan explica que o consumo elevado de açúcar e alimentos ultraprocessados está diretamente associado ao crescimento da obesidade infantil.

Segundo ela, crianças acima do peso possuem 75% mais chance de se tornarem adolescentes obesos, enquanto cerca de 89% dos adolescentes com obesidade tendem a manter o quadro na vida adulta.

Entre os problemas associados estão:

  • diabetes tipo 2
  • hipertensão arterial
  • acúmulo de gordura no fígado
  • problemas ortopédicos
  • distúrbios metabólicos

Conselho de Nutrição reage

Após a repercussão das falas do prefeito, o Conselho Regional de Nutrição da 1ª Região divulgou nota de repúdio às declarações.

A entidade ressaltou que os cardápios escolares são elaborados por nutricionistas e seguem critérios técnicos definidos por legislação federal.

“Classificar a alimentação escolar como ‘sem graça’ e defender o uso indiscriminado de açúcar nas receitas, sem embasamento científico, representa um desserviço à saúde pública”, diz trecho da nota.

Prefeito ironiza investigação

Após as críticas, Brunini voltou a comentar o assunto nas redes sociais.

Em um story publicado no Instagram, o prefeito fez nova enquete questionando o cardápio servido nas escolas municipais.

Na publicação, perguntou:

“Comer milho cozido às 7h na escola, bolo de cenoura salgada, bolo de cacau sem açúcar e sem doce. Quem gosta?”

As opções de resposta eram:

  • “Concordo com o prefeito, ninguém gosta”
  • “Concordo com a nutri, é para comer sem gostar”.