Operação Fariseus aponta elo de grupo evangélico com lideranças do CV e investiga uso de projeto religioso em Cuiabá
A Operação Fariseus, deflagrada para investigar uma família ligada a atividades religiosas suspeita de manter vínculos com o Comando Vermelho em Mato Grosso, revelou conversas entre mulheres integrantes do projeto “Resgatando Vidas” e presos apontados como lideranças da facção criminosa.
Segundo a Polícia Civil, os diálogos indicam que o projeto religioso, utilizado para evangelização dentro do sistema prisional, teria sido desvirtuado para possibilitar contatos pessoais, financeiros e afetivos com integrantes do Comando Vermelho presos na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá.
Entre as investigadas aparecem Rhavenna Barcelos de Almeida, apontada como uma das principais figuras do grupo, além de Wiara Lima Cadore, Karolina Lopes Padilha, Jéssi Mariane Araújo dos Anjos, Lais Barbosa Lopes e Lo Rhuama Barcelos de Almeida Gobbi.
De acordo com o relatório policial, as mulheres mantinham contato com presos, lideranças da facção, foragidos e integrantes identificados como “soldados” do CVMT. A investigação também cita viagens realizadas ao Rio de Janeiro, onde teriam ocorrido encontros com pessoas relacionadas à organização criminosa.
Os investigadores afirmam que as conversas interceptadas revelam relacionamentos de natureza pessoal e amorosa, acesso a informações internas da PCE, recebimento ou expectativa de benefícios financeiros e atuação como intermediárias em contatos, favores e movimentações de recursos.
Conversas mencionam líderes da facção
Um dos diálogos destacados pela investigação ocorreu em julho de 2025. Na conversa, Karolina Lopes Padilha menciona um benefício supostamente oferecido por Sandro Louco, apontado pelas autoridades como uma das principais lideranças do Comando Vermelho em Mato Grosso.
“Aproveitamos horrores a caixa que Sandro louco deu kkkkkkkkkk”, escreveu Karolina, conforme consta no relatório.
Meses depois, em novembro, ela informou no grupo que “Sandro voltou pro convívio”. Rhavenna respondeu afirmativamente e acrescentou: “Se ele foi o resto vai”.
Para os investigadores, os diálogos são relevantes por sugerirem que integrantes do grupo mantinham proximidade com membros de destaque da facção e teriam recebido benefícios ligados a essas relações.
O relatório também cita contatos com Luiz Fagner Gomes dos Santos, conhecido como “Zóio”; Pedro Antônio dos Santos, chamado de “Pedrinho” ou “Cotonete”; Renildo da Silva Rios, conhecido como “Zoio” ou “Velhote” e apontado como um dos fundadores da facção; e Leonardo de Jesus, o “Buchudo”.
Visitas a presos também entraram na investigação
Outro diálogo analisado pela Polícia Civil envolve Wiara Lima Cadore. Em uma das conversas, ela fala sobre realizar visitas a diferentes detentos durante dias destinados ao acesso ao presídio.
“Gata, cada dia eu vou visitar um. […] Vou visitar todos”, afirma em parte do diálogo.
Segundo a interpretação apresentada no relatório, a preocupação manifestada para que nenhum dos presos ficasse “brigado” com os demais indicaria uma relação que ultrapassaria os limites de uma atividade exclusivamente religiosa.
A investigação também identificou tratativas envolvendo Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como “Batman”, apontado pela polícia como liderança do Comando Vermelho e foragido no Rio de Janeiro.
Polícia apura possível uso de empresas e CNPJs
As conversas ainda chamaram a atenção dos investigadores para possíveis operações financeiras.
Em novembro de 2025, Karolina teria perguntado no grupo se alguma das integrantes possuía CNPJ. Jéssi Mariane Araújo dos Anjos respondeu que ela e outra integrante possuíam empresas relacionadas às áreas de design de sobrancelhas e serviços de unhas.
O próprio relatório policial ressalta que a conversa, isoladamente, não é suficiente para demonstrar uma finalidade criminosa. Entretanto, os investigadores afirmam que o diálogo deve ser analisado em conjunto com outros elementos reunidos no inquérito, principalmente aqueles relacionados à circulação, recebimento, fracionamento e triangulação de dinheiro.
Investigação aponta relações pessoais com presos
Outra conversa mencionada no relatório teria ocorrido em dezembro de 2025. Nela, integrantes do grupo fazem referências a pessoas identificadas pelos investigadores como lideranças ou integrantes do Comando Vermelho.
Karolina teria citado “Louco”, “Wita”, “Folha”, “Jacaré” e “Batman”, enquanto Wiara acrescentou “Buchudo”.
Conforme a investigação, “Louco” seria uma referência a Sandro Louco; “Wita” corresponderia a Paulo Witer Farias, conhecido como “WT” e apontado como tesoureiro da facção; “Batman” seria Jonas Souza Gonçalves Júnior; e “Buchudo”, Leonardo de Jesus.
Em fevereiro de 2026, novos diálogos chamaram a atenção da Polícia Civil pelo teor das conversas envolvendo relacionamentos com homens ligados ao crime.
Para os investigadores, quando analisadas em conjunto com referências a namorados, visitas à PCE e divisão de contatos com presos, as mensagens reforçariam a hipótese de que as relações não se limitavam à evangelização.
Projeto teria sido usado para intermediar comunicação com presos
A investigação que embasou a Operação Fariseus sustenta ainda que o projeto “Resgatando Vidas” teria sido utilizado para facilitar a comunicação entre integrantes do Comando Vermelho presos e pessoas que estavam fora do sistema penitenciário.
Segundo a Polícia Civil, há suspeitas de entrada de celulares na PCE, transmissão de recados e ordens atribuídas à facção, além de recebimento, transporte e transferência de valores.
O delegado Victor Hugo, da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Dracco), afirmou durante a investigação que os suspeitos teriam atuado em diferentes funções relacionadas à organização criminosa.
“Eles recebiam recados, eles dilapidavam valores em espécie, eles transportavam valores para outras pessoas”, declarou o delegado ao comentar as apurações.
O relatório produzido durante a investigação serviu de fundamento para medidas autorizadas pela Justiça e para a deflagração da Operação Fariseus em 16 de julho. Rhavenna Barcelos foi presa durante a ofensiva e, conforme as informações apresentadas na investigação, permaneceu detida.
Familiares também foram alvos
Além de Rhavenna, familiares dela também passaram a ser investigados.
Os pais, os pastores Nivaldo de Almeida e Orminda Carlos de Barcelos Almeida, foram apontados pela Polícia Civil como suspeitos de participação na estrutura investigada e estiveram entre os alvos de mandados de busca e apreensão.
Também aparecem entre os investigados Rhuan Barcelos, primo de Rhavenna; Anatany Barcelos, irmã dela; além de Jéssi Mariane Araújo dos Anjos, Karolina Lopes Padilha, Wiara Lima Cadore e Lais Barbosa Lopes.
Polícia investiga patrimônio e suposta lavagem de dinheiro
Outra frente da Operação Fariseus apura a origem do patrimônio atribuído a Rhavenna.
Segundo o delegado Victor Hugo, a investigação suspeita que um salão e a empresa “A Burguesinha dos Looks”, registrada em nome da investigada, tenham sido utilizados para movimentar e ocultar recursos provenientes da facção.
A Polícia Civil também apura informações de que uma cirurgia plástica de Rhavenna teria sido custeada com dinheiro ligado ao grupo criminoso.
Esses elementos fazem parte do conjunto de provas e indícios reunidos no inquérito e ainda estão sujeitos à análise do Judiciário e ao exercício do direito de defesa dos investigados.







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