×

Custos da soja sobem quase 17% e apertam margem do produtor em Mato Grosso

Os produtores rurais de Mato Grosso devem entrar na safra 2026/27 sob maior pressão financeira. O custo total da soja está estimado em R$ 8.171,41 por hectare, avanço de 16,69% na comparação com o ciclo anterior, enquanto a projeção para o Lajida aponta retração de 35,05%.

Os números fazem parte do Projeto Custo de Produção Agropecuário de Mato Grosso (CPA-MT), desenvolvido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT) em parceria com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

Diante do cenário de margens mais estreitas, a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) destaca como principais preocupações o acesso ao crédito, a possibilidade de renegociação de dívidas e a necessidade de maior previsibilidade na área tributária.

Segundo o diretor administrativo da entidade, Diego Bertuol, o setor já vem acumulando sucessivos ciclos de custos elevados, juros altos e rentabilidade pressionada.

Para ele, uma eventual perda de produtividade, uma queda na cotação da soja ou um novo aumento das despesas financeiras pode ser suficiente para transformar uma margem reduzida em resultado negativo para o produtor.

Entre os componentes que mais encareceram a produção estão os defensivos agrícolas, com elevação próxima de 11%, e os fertilizantes e corretivos, que registraram aumento de 5,40%.

A pressão sobre os custos também começa a influenciar as decisões dentro das propriedades. Em alguns casos, produtores têm reduzido investimentos e revisto a quantidade de nutrientes aplicada nas lavouras para preservar o caixa.

Em Campo Novo do Parecis, a delegada coordenadora da Aprosoja MT, Clarete Brolio Rezende, afirmou que optou por antecipar a aquisição de insumos diante das frequentes oscilações de preços. Atualmente, uma das maiores preocupações, segundo ela, está relacionada ao diesel, que apresenta variações recorrentes de valor.

Produção de soja deve recuar

A projeção indica estabilidade na área destinada à soja em Mato Grosso, que deve alcançar aproximadamente 13,04 milhões de hectares.

A produtividade média, entretanto, é estimada em 62,44 sacas por hectare, redução de 5,43%. Caso a previsão se confirme, a produção estadual poderá chegar a 48,88 milhões de toneladas, volume 5,19% inferior ao projetado para o ciclo anterior.

Para Bertuol, eventuais cortes de despesas precisam ser avaliados com cautela para evitar impactos futuros sobre o desempenho das lavouras.

A preocupação da entidade é que a busca por economia imediata não reduza a capacidade produtiva da agricultura de Mato Grosso nos próximos anos.

Milho também tem perspectiva de menor produtividade

No milho, a expectativa é de pequeno crescimento da área cultivada. A projeção aponta avanço de 0,59%, com aproximadamente 7,48 milhões de hectares destinados ao cereal.

Por outro lado, a produtividade média está estimada em 119,64 sacas por hectare, queda de 8,05%. A produção total projetada é de 53,68 milhões de toneladas.

Clarete ressalta que o resultado do milho está diretamente relacionado ao andamento da primeira safra, especialmente ao calendário da soja e às condições climáticas.

Como boa parte do milho mato-grossense é cultivada na segunda safra, atrasos na colheita da soja podem reduzir a janela considerada mais adequada para o plantio do cereal.

Crédito e renegociação entram no radar do setor

A recuperação da capacidade de financiamento dos produtores também aparece entre as principais preocupações para o próximo ciclo.

A Aprosoja MT defende medidas que facilitem a renegociação das dívidas rurais e reduzam o risco de novos aumentos nos custos de produção.

Bertuol citou a Medida Provisória 1.376, que prevê linhas de crédito voltadas à renegociação de débitos do setor rural e a criação de mecanismo de garantia para produtores atingidos por eventos climáticos adversos.

A avaliação da entidade, entretanto, é de que a implementação dessas medidas ainda ocorre em ritmo abaixo do esperado pelo setor.

Segundo o diretor, o volume de recursos anunciado para o financiamento agrícola precisa efetivamente chegar aos produtores, que atualmente enfrentam juros elevados, maior restrição para obtenção de crédito e exigências mais rigorosas de garantias.

A entidade defende ainda que eventuais renegociações considerem a capacidade real de pagamento de cada produtor, com prazos, períodos de carência e taxas de juros compatíveis com a realidade da atividade rural.

Além da questão financeira, a Aprosoja MT acompanha os possíveis impactos da reforma tributária sobre o agronegócio. Entre os pontos citados pela associação está o congelamento do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab), em Mato Grosso, dentro das discussões relacionadas aos custos suportados pelo setor produtivo.

Publicar comentário