Mato Grosso registra 21 conflitos por terra e número de disputas por água supera todo o ano de 2025
Mato Grosso contabilizou 21 conflitos relacionados à terra, 10 disputas envolvendo acesso à água e quatro ocorrências de trabalho escravo rural durante os primeiros seis meses de 2026. Os números fazem parte do levantamento parcial divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) na quarta-feira (2).
Os registros envolvem diferentes grupos sociais, entre eles povos indígenas, famílias assentadas, trabalhadores sem-terra, quilombolas, comunidades pesqueiras e trabalhadores rurais.
Um dos dados que mais chama atenção é o crescimento dos conflitos relacionados à água. Entre janeiro e junho deste ano, foram identificadas 10 ocorrências que atingiram 494 famílias no Estado.
Com esse resultado, Mato Grosso aparece entre as unidades da Federação com maior número desse tipo de conflito no país. O Estado ficou atrás somente do Pará, que registrou 16 casos, e de Minas Gerais, com 11, além de empatar com o Amazonas.
Em apenas metade de 2026, Mato Grosso também ultrapassou o número registrado durante todo o ano anterior. Em 2025, haviam sido contabilizados oito conflitos relacionados à água.
Segundo a CPT, essas ocorrências podem envolver contaminação ou poluição de rios e outras fontes hídricas, restrições ou redução do acesso à água e impactos causados por atividades como garimpo e grandes obras de infraestrutura.
Parte dos episódios identificados em Mato Grosso está relacionada aos efeitos da atividade garimpeira. Em Juruena, por exemplo, o Assentamento Vale do Amanhecer aparece no levantamento com 225 famílias afetadas.
Na Terra Indígena Kayabi, localizada em Apiacás, são 192 famílias envolvidas nos registros.
Outro território citado é a Terra Indígena Sararé, em Conquista D’Oeste, onde 47 famílias aparecem entre as atingidas. Conforme os dados da CPT, a região enfrenta problemas associados à presença de garimpeiros, incluindo invasões e desmatamento ilegal.
Já em Nova Guarita, 24 famílias do Assentamento Vale da Esperança estão incluídas no levantamento.
Comunidades tradicionais também aparecem entre as afetadas
Os problemas de acesso à água também atingiram comunidades tradicionais e grupos ligados à pesca.
Em Barão de Melgaço, aparecem nos registros as comunidades de Croará, Estirão Comprido, Porto Brandão, Rancharia e Ribeirinha de Piúva. Em Chapada dos Guimarães, há ocorrência envolvendo a Comunidade Padilha.
Nessas localidades, a CPT relaciona os conflitos principalmente à diminuição do acesso aos recursos hídricos.
Conflitos por terra atingem milhares de pessoas
Além das questões relacionadas à água, Mato Grosso registrou 21 conflitos ligados à ocupação e à posse da terra no primeiro semestre.
Os episódios foram classificados pela Comissão Pastoral da Terra em diferentes categorias, entre elas invasão de territórios, desmatamento ilegal, grilagem, pistolagem, violações das condições de existência e assassinato.
Um dos casos com maior número de pessoas afetadas envolve a Terra Indígena Parabubure, do povo Xavante, em Campinápolis. Segundo o levantamento, 7.610 pessoas aparecem como atingidas.
Outras terras indígenas também estão na relação. Na Terra Indígena São Marcos, foram contabilizadas 712 pessoas afetadas; em Pimentel Barbosa, 440; em Areões, 336; em Merure, 164; em Tereza Cristina, 127; em Capoto/Jarinã, 397; e em Sangradouro/Volta Grande, 225.
Na Terra Indígena Sararé, em Conquista D’Oeste, a CPT registrou três ocorrências envolvendo 47 indígenas. Os episódios estão relacionados a invasões e desmatamento ilegal que, segundo a entidade, estão associados à presença de garimpeiros.
Brasil teve 841 conflitos no campo
Em todo o território nacional, a CPT contabilizou 841 conflitos no campo entre janeiro e junho de 2026, ante 798 registros no mesmo intervalo de 2025. O crescimento foi de aproximadamente 5,4%.
Do total registrado neste ano, 711 ocorrências foram relacionadas à terra, 100 envolveram questões relacionadas à água e outras 30 foram classificadas como trabalho escravo rural.
Entre os 711 conflitos fundiários, 663 foram enquadrados como situações de violência relacionadas à ocupação e à posse da terra. Outros 48 correspondem a formas de resistência, incluindo ocupações e acampamentos.
A contaminação provocada por agrotóxicos foi a forma de violência mais frequente nesse grupo. Os registros passaram de 98 no primeiro semestre de 2025 para 169 no mesmo período de 2026.
Também cresceram os episódios de invasão de territórios, que subiram de 96 para 109, assim como os casos de desmatamento ilegal, que passaram de 67 para 107.
Assassinatos caem, mas violência contra pessoas aumenta
Apesar da alta no número total de conflitos no campo, houve redução dos assassinatos relacionados às disputas rurais no Brasil.
A CPT contabilizou seis mortes no primeiro semestre de 2026. No mesmo período de 2025, haviam sido registrados 27 assassinatos.
Entre as vítimas deste ano está Adeildo Gonçalves Calheiro, conhecido como “Flecha”, de 43 anos. Ele foi morto em 23 de janeiro na região da Fazenda Vale do Pari/Assentamento Pari, em Alto Paraguai.
De acordo com a CPT, Adeildo integrava a categoria dos trabalhadores sem-terra e sua morte foi incluída entre os episódios relacionados aos conflitos fundiários.
Mesmo com a queda dos assassinatos, outras formas de violência contra pessoas aumentaram no país.
Os registros passaram de 418 no primeiro semestre de 2025 para 588 ocorrências em 2026. Já o número de vítimas aumentou de 308 para 497.
Entre as situações identificadas estão contaminações por minérios e agrotóxicos, criminalização e ferimentos. Povos indígenas, trabalhadores sem-terra, posseiros, seringueiros e quilombolas estão entre os grupos mais atingidos.
Trabalho escravo rural teve quatro registros em Mato Grosso
Outro ponto do levantamento diz respeito ao trabalho em condições análogas à escravidão.
Mato Grosso teve quatro ocorrências registradas nos primeiros seis meses de 2026, localizadas nos municípios de Alta Floresta, Alto Taquari, Campo Novo do Parecis e Peixoto de Azevedo.
Os episódios ocorreram em atividades que envolviam serviços gerais, produção de carvão, cultivo de algodão e criação de gado.
Nos casos em que a quantidade de trabalhadores foi informada, 72 pessoas foram resgatadas.
A maior operação mencionada pela CPT ocorreu em Campo Novo do Parecis, onde 35 trabalhadores foram retirados de uma lavoura de algodão.
Em Peixoto de Azevedo, 25 trabalhadores foram encontrados em uma ocorrência ligada à pecuária. Outros 12 foram resgatados de uma atividade de produção de carvão em Alto Taquari.
No caso registrado em Alta Floresta, a CPT informou a ocorrência, mas não apresentou o total de pessoas resgatadas.
Mobilizações reuniram mais de 200 pessoas
O relatório parcial também identificou duas manifestações de luta realizadas em Mato Grosso durante o primeiro semestre, reunindo 214 participantes.
Em 13 de maio, aproximadamente 200 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) participaram da ocupação do prédio do Incra, em Cuiabá. Entre as reivindicações estavam o assentamento de famílias e avanços na política de reforma agrária.
Outra mobilização ocorreu em 7 de junho, em Juscimeira, quando 14 pessoas participaram da Jornada Nacional em Defesa da Natureza e seus Povos.
O ato apresentou reivindicações relacionadas à preservação da água e do meio ambiente, além da reforma agrária.
Segundo a CPT, essas manifestações não entram na soma oficial dos conflitos no campo. Elas são registradas separadamente como formas de resistência utilizadas por comunidades e movimentos para reivindicar direitos e denunciar situações consideradas violentas.
No Brasil, foram contabilizadas 284 manifestações entre janeiro e junho deste ano, contra 253 no mesmo intervalo de 2025.
A Comissão Pastoral da Terra ressalta que os dados divulgados são parciais e ainda podem ser revisados ou ampliados conforme novas informações sejam incorporadas.
O levantamento é elaborado a partir de informações obtidas por agentes da própria entidade, reportagens publicadas pela imprensa, registros de órgãos públicos, movimentos sociais e organizações parceiras.
Os números consolidados deverão integrar o relatório anual “Conflitos no Campo Brasil”, cuja divulgação está prevista para 2027.






