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Com 16 trocas no staff, Flávia Moretti encerra primeiro ano sob isolamento político

A gestão da prefeita Flávia Moretti (PL) chega ao fim de 2025 marcada por instabilidade administrativa, desgaste político e isolamento institucional. Em apenas 12 meses, foram 16 trocas no primeiro escalão, uma média superior a uma mudança por mês, número que expõe dificuldades de articulação interna e externa no Paço Couto Magalhães.

Além da alta rotatividade no secretariado, a prefeita enfrenta crise na relação com o vice-prefeito, fragilidade na base legislativa, pressão constante da Câmara Municipal e instalação de CPI, fatores que consolidam um cenário de governabilidade reduzida.

🚰 Crise no DAE marca início do mandato

Logo no início da gestão, Flávia decretou situação de emergência e calamidade pública em razão das chuvas intensas e, principalmente, da crise crônica no abastecimento de água, problema histórico atribuído ao Departamento de Água e Esgoto (DAE).

A prefeita responsabilizou o sucateamento da rede, vandalismo e até suposto boicote político. A situação escalou para protestos populares, com bloqueios de vias, queima de pneus e manifestações em bairros periféricos, onde a falta d’água se intensificou.

No último trimestre do ano, o decreto de calamidade foi prorrogado por mais 180 dias, evidenciando a dificuldade da gestão em resolver o principal problema do município — tema central da campanha eleitoral, sob o slogan “Sede por Mudança”.

Emergência em saúde e desgaste herdado

Ainda no primeiro trimestre de 2025, Flávia decretou emergência em saúde pública por conta da epidemia de dengue, zika e chikungunya, após um aumento de quase 400% nas notificações nos primeiros 15 dias do ano.

A prefeita atribuiu a situação à gestão anterior de Kalil Baracat (MDB), alegando ausência de planejamento e ações preventivas, discurso que passou a se repetir ao longo do ano sempre que a administração enfrentava gargalos estruturais.

Privatização do DAE gera novo foco de tensão

Diante da incapacidade de resposta rápida, Flávia promoveu troca geral no comando do DAE e iniciou estudos parade privatização da autarquia, contratando a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) sem licitação para diagnóstico financeiro e estrutural.

A decisão provocou reação imediata da Câmara, lideranças comunitárias e movimentos sociais, que questionaram a legalidade e a transparência do contrato, ampliando o desgaste político da prefeita.

Ruptura com o vice e isolamento na Câmara

A relação com o vice-prefeito Tião da Zaeli (PL) se deteriorou ao longo do ano e se rompeu publicamente. Zaeli chegou a afirmar que mulheres “sem estrutura emocional” não deveriam fazer política, declaração interpretada como ataque direto à prefeita.

No Legislativo, Flávia enfrenta isolamento quase absoluto. O único aliado fiel é o líder do Governo, Bruno Rios (PL). O desgaste começou ainda antes da posse, quando a prefeita tentou articular uma presidência alternativa na Câmara contra Wanderley Cerqueira (MDB). A reação foi imediata: os vereadores se unificaram e declararam independência do Executivo.

Lei do Diploma, CPI e confrontos públicos

Entre os embates mais simbólicos está a aprovação da chamada “Lei do Diploma”, que obrigou Flávia a exonerar o próprio marido, Carlos Alberto, da Secretaria de Assuntos Estratégicos por não possuir ensino superior. A ironia política: a lei é de autoria do próprio líder do governo.

A prefeita também foi chamada de “mentirosa” em plenário pelo vereador Samir Katumata, episódio classificado por ela como violência política de gênero.

O desgaste culminou na CPI do Slogan, que investiga possível promoção pessoal com dinheiro público por meio da inserção de marcas e frases da gestão em uniformes escolares.

A dança das cadeiras no secretariado

A instabilidade administrativa se reflete na sequência de trocas:

Secretaria de Governo: Silvio Fidélis assume como terceiro titular em um ano DAE: Zilmar Dias Silva substitui o coronel Sandro Azambuja Administração: quatro mudanças no comando Planejamento: troca e realocação interna Desenvolvimento Econômico: três mudanças após embates públicos Serviços Públicos: troca após licença e afastamento Educação: três secretários em menos de um ano Assistência Social: mudança após operação da PF Assuntos Estratégicos: exoneração do marido da prefeita por força de lei

Ao todo, 16 alterações no primeiro escalão, número que reforça a percepção de falta de estabilidade política e administrativa.

Leitura política

Ao final de 2025, Flávia Moretti encerra seu primeiro ano de mandato sob pressão institucional, desgaste interno, isolamento legislativo e dificuldades estruturais não resolvidas, especialmente no abastecimento de água o principal compromisso de campanha.

O segundo ano da gestão começa com desafios ampliados: reconstruir pontes políticas, estancar a crise administrativa e evitar que o isolamento comprometa de vez a governabilidade.