Bilhete rasurado da Mega-Sena vira disputa judicial por prêmio de R$ 29 milhões em MT
Um bilhete danificado da Mega-Sena colocou uma ex-funcionária de lotérica e o antigo patrão em uma disputa judicial por R$ 29 milhões em Sinop, no Mato Grosso. O prêmio está bloqueado pela Justiça enquanto o caso segue nas esferas cível e criminal.
A confusão começou em 12 de agosto de 2023, no fim do expediente de uma casa lotérica. Durante o atendimento a uma cliente, a impressora apresentou falha e gerou um comprovante com rasura. A operadora de caixa Clarice Simon então emitiu uma nova aposta idêntica e entregou o bilhete regular à cliente.
O jogo entregue à apostadora foi premiado, e ela recebeu sua parte normalmente. Porém, o concurso, que pagou R$ 116 milhões divididos entre quatro apostas, também teve outro bilhete vencedor registrado na mesma lotérica: justamente o comprovante danificado.
Imagens de segurança mostram Clarice guardando o bilhete com defeito em um cofre desativado, usado pelos funcionários como armário. Na segunda-feira seguinte, ela conferiu o jogo com uma colega e constatou que as seis dezenas haviam sido sorteadas.
Depois disso, Clarice foi com o marido, Cladecir Picoli, a uma agência da Caixa Econômica Federal para tentar sacar o prêmio. Na ocasião, o casal informou que a aposta teria sido feita por ele.
A Caixa, no entanto, desconfiou das rasuras e iniciou uma apuração interna. Ao tomar conhecimento da tentativa de resgate, o dono da lotérica, Amélio Lenke, registrou queixa-crime por furto. Em novembro de 2023, a Justiça determinou o bloqueio preventivo dos R$ 29 milhões.
Em setembro de 2025, Clarice e o marido se tornaram réus por furto qualificado. A defesa da ex-funcionária sustenta que ela pagou pelo bilhete danificado e afirma que esse tipo de procedimento era comum na lotérica quando havia falhas de impressão.
Uma ex-colega responsável pela contabilidade e pelo fechamento de caixa também declarou que Clarice teria quitado o valor da aposta com defeito.
Já o dono da lotérica contesta a versão. A defesa dele afirma que as normas operacionais impedem o reaproveitamento ou a apropriação de bilhetes com erro de impressão, independentemente do valor.

A Caixa informou que não comenta processos judiciais em andamento e disse apenas que cumpre a legislação e as decisões da Justiça.
O Ministério Público de Mato Grosso denunciou o casal com base no inquérito policial, mas também apresentou um entendimento que pode mudar o rumo do caso: para a promotoria, o prêmio não pertence nem à ex-funcionária, por causa da acusação de furto, nem ao dono da lotérica.
Se essa tese for aceita, os R$ 29 milhões podem voltar para os cofres da Caixa Econômica Federal.
A definição ainda deve demorar. As audiências de instrução e julgamento foram marcadas para fevereiro de 2027, quando a Justiça começará a decidir quem, de fato, tem direito ao prêmio milionário.







